Confabulações (sem sentido?) sobre os avessos
07 Mai 2012 Deixe um Comentário
Dizem os românticos que o primeiro amor é o mais verdadeiro. Eu tive um primeiro namorado que tinha mistificações sobre o fato, e sempre me lembrava delas. E há uma boa dose de filmes, e músicas, e livros, e poemas sobre isso. Não sou muito fã deste romantismo clichê, como eu dizia pra um grande amigo (que até escreveu um conto sobre isso num passado remoto), nem todas as mulheres gostam de flores. Acho que cada uma tem seu próprio clichê amoroso que derrete seu coração, sem ser necessariamente o óbvio e padronizado.
Mas uma coisa que inegavelmente o primeiro amor tem é a pureza. Deve ser o único relacionamento no qual se mergulha de cabeça, sem traumas anteriores. As mulheres principalmente sofrem uma severa série de idealizações no primeiro amor, muitas vezes ligadas à eternidade do mesmo. E algum tempo depois se verão pensando pela primeira de muitas vezes que o “pra sempre” de fato sempre acaba.
Às vezes eu tenho a impressão que todos os relacionamentos que se seguem são sempre a busca pelo avesso do anterior, o reverso do que o anterior tinha de ruim. Eu pelo menos sinto que ao fim de um relacionamento estou sempre fazendo uma lista mental das características com as quais eu nunca mais quero ter que conviver. E que o que eu buscava no início do relacionamento e me fez entrar nele em primeira instancia é absolutamente distante de tudo aquilo de que eu quero fugir no fim. O que me faz pensar que eu entrei procurando uma coisa que deveria me agradar, e acabei descobrindo mais coisas que não me agradam, o que analisando bem, beira a frustração. E em parte justifica próprio fim.
Me ocorre que um dia eu possa me descobrir em um ciclo de avessos dos avessos. Exagerando um pouco, talvez um dia eu descubra que o relacionamento 2 é o oposto do 1, e o 3 é oposto do 2, logo, não seria o 3 parecido com o 1? Espero que isso não faça sentido na prática, já que há tantos jeitos pelos quais se pode ser completamente diferente de alguém.
Inclusive, pode ser que às vezes estejamos “peneirando” as pessoas por uma influência excessivamente grande deste ciclo de avessos. Talvez uma pessoa ótima perca sua oportunidade logo de cara por me lembrar demais tudo aquilo de que eu quero fugir. E o inverso também vale, talvez alguém não tão bom ganhe uma oportunidade só por me lembrar daquilo que eu busquei e não encontrei. Coincidência, sorte, escolha ou fatalismo alguém ser filtrado pelo acaso do momento em que surgiu?
Versão 3.0 de si mesmo?
01 Mai 2012 1 Comentário
-Por que você a ama?
- Porque com ela eu posso ser a melhor versão de mim mesmo.
A frase fofa vem do filme “A delicadeza do amor”, muito bom por sinal. Mas ela me fez pensar muito. Afinal, quantas versões podem existir de nós mesmos, sem que deixemos de ser nós mesmos? Tirando casos patológicos de múltiplas personalidades, essa coisa não me convence. A melhor versão de si? Quer dizer, você então tem a capacidade de ser melhor do que você realmente é, mas não exerce isso?
Eu já conheci a minha cota de “melhores versões” das pessoas. Digo com conhecimento de causa que eu dispenso. Acho que eu ouso dizer que preferia conhecer as “piores versões” das pessoas logo de cara, já que eventualmente estas vão surgir mesmo. Que alguém me diga um dia “vc conheceu o pior de mim, e aí, curtiu?”.
Talvez a paixão nunca resista ao pior de alguém, e por isso precisemos mostrar o melhor. Mas talvez poupe decepções. Chame-me de cética ou pouco romântica, não acho que alguém tenha capacidade de te fazer ser o que você não é. No máximo as pessoas podem trazer à tona características latentes na sua personalidade.
Ou seja, o que fazemos é dar um empurrãozinho. Mas mudar quem você é?? Não acredito que se mude a pedidos de alguém, por pressões de alguém, ou por simplesmente querer. Se é o que se é, nem mais nem menos. O resto é fingimento. É charme pra conquistar, impressionar. As pessoas mais surpreendentes positivamente foram as que não tentaram me impressionar. Foram o que são e ponto.
-Por que você a ama?
-Por tudo que ela é. E também por tudo que não é.
Essa sim é a mais linda e sincera declaração de amor.
Vícios emocionais
18 Abr 2012 1 Comentário
Se existe algo que atrasa a vida são os vícios emocionais. Aqueles erros consentidos que sempre voltamos a repetir, erros que muita vezes se encontram personificados em alguém. Temos aquela mania boba de insistir nas mesmas pessoas esperando que o resultado seja diferente dessa vez.
Mesmos amigos que não valem a pena, mesmos caras que nunca ofereceram (ão) o que você espera, indo aos mesmos lugares e esperando que a vida de repente seja diferente. A não ser que vc more naquela Smalville do seriado enjoado e caia um meteoro no seu quarteirão, a estatística não te é muito favorável.
É mais ou menos como reatar um namoro antigo. Você já sabe que deu errado, já sabe tudo que fez dar errado, mas de repente acha que em uns poucos e mágicos meses a pessoa mudou, se tornou outra, e agora sim tudo vai funcionar. Há coisas que simplesmente não mudam. Uma amiga falsa continuará sendo falsa. Um cara galinha continuará sendo galinha. Um peguete que te enrola continuará te enrolando. A não ser que algo muito substancial mude. Ou que a pessoa se torne atriz.
E é a desgranhenta da zona de conforto que nos empaca, que nos deixa pensando que talvez o incerto seja pior que um certo medianamente bom. Bem, talvez às vezes até seja. O problema da zona de conforto é justamente que lá não tem muita ação, não podemos esperar grandes emoções e acontecimentos de lá. Tende à monotonia emocional.
Porque de algum jeito estes vícios nos ocupam a mente, e nós nos tornamos preguiçosos demais pra buscar algo que realmente nos satisfaça. O mais peculiar é que o que nos motiva a sair da zona de conforto é o próprio desconforto, é encarar que algo nos incomoda realmente e então mudar. Mas no fundo estamos rotineiramente tamponando as coisas ruins, amenizando tudo, até que nos incomode tão pouco que nos acomodamos. E então as portas estão abertas pra uma montanha russa… de tédio.
A ressaca da hipérbole do amor
03 Abr 2012 Deixe um Comentário
A hipérbole é uma figura de linguagem, é a marca da exageração, uma exageração sabida e consciente, pra causar efeito.
O amor também tem suas hipérboles. Menos conscientes, contudo. E eu nem me refiro aos “não vivo sem você”, e “te amo mais que tudo”. Falo mesmo da hipérbole do que achamos que sentimos.
O sentimento parece tão grande, tão forte, e logo depois você procura e não encontra mais. Ele se encolheu, diminuiu, se escondeu.
E você se põe a perguntar quão grande ele era, quão forte ele foi. É uma sensação engraçada, todo mundo já passou por isso. Foi obrigado a ver aquele ex sorridente enquanto você estava arrasado por dentro. É natural que pensemos que não havia amor.
Mas talvez houvesse. Mas menor do que se imaginava, menos profundo do que se esperava. Veio uma brisa e levou. Sobrou um vazio.
E aí você se vê numa ressaca. Moral e física. Se perguntando se o erro foi esperar tanto pra acabar algo que não existia, ou deixar morrer algo que poderia ter existido.
Till we meet again
18 Mar 2012 Deixe um Comentário
Há sempre um lugar onde você deixou seu coração. Suponho eu que tenhamos muito mais que um coração, pois os meus eu espalhei por aí, pela vida. E às vezes a gente tropeça em um grande pedaço do coração que ficou incrustado em alguma encruzilhada do caminho.
Recentemente eu fiz uma viagem que me trouxe 2 lascas de coração de volta. A primeira foi uma amiga que eu conheci há 2 anos na primavera mais linda da minha vida. Paris, maio de 2009, um punhado de amigas que mudaram minha vida e a minha visão do mundo, cada uma a seu jeito.
Não só pq a gente fez aquelas coisas mágicas que se deve fazer pelo menos uma vez na vida, como ir beber vodka no Champ de Mars vendo o clichê mais lindo do mundo piscar enquanto a gente alucinava e falava de sexo e da vida. Mas pq cada uma me deu algo da sua experiência de vida, que eu carrego comigo até hoje. E rever esta amiga me trouxe de volta o gostinho dessa temporada linda.
E depois foi a vez de encontrar uma lasca robusta da minha vida. Incrível como a gente muda a vida e a vida muda a gente tão depressa! E eu e esta lasca nos vimos em Paris, de sobretudo e bota, absolutamente diferente do combo rasteirinha-e-vestido-estampado que povoou nossa vida por anos.
E foi delicioso ver que muda a vida mas a amizade não, esta transcende, atinge um patamar intocado. E você descobre que a distância é tão menor se você enxerga aquela pessoa em tantas coisas, se você já sabe por antecipação qual conselho ela dará ou que coisa ela vai achar sem graça. E afinal de contas, o som do riso é o mesmo não importa onde se esteja.
E refletindo bem, são tantos pedaços imaculados da nossa trajetória de vida que me parece realmente impossível que se tenha só um coração e ao mesmo se distribua ele por aí. Há lascas deixadas em lugares inesquecíveis, com pessoas marcantes, e em situações únicas. E alguns pedaços do coração não são sequer deixados com alguém realmente significativo na sua vida, às vezes é só um momento tão marcante que faz valer a pena deixar mais um pedaço pra trás.
Life is about the people you meet and the things you create with them, so go out and start creating.
E aí, já desligou a TV pra pôr a cara no mundo?
O mundo num “like”
14 Mar 2012 Deixe um Comentário
Hoje eu trombei com o perfil do facebook de alguém que não visita minha mente com freqüência. Alguém que fez parte do meu passado mas que eu não vejo há uns 15 anos. Aqueles relacionamentos tão marcantes nos primeiros anos de existência mas que por fatos da vida, que se torna adulta, ficam confinados à infância.
E eu corri o perfil dessa pessoa que brotou na minha frente, tentando ver fotos, aquela curiosidade de saber como a pessoa está. Fotos bloqueadas. E no perfil a pessoa está de costas. Ou seja, nada feito, continuei a buscar algo que me trouxesse mais lembranças.
Fulana curtiu essa, aquela página, e eis que no meio me aparece “Fulana curtiu ‘Depósito de tirinhas’.” Eu também curti! Puxa! Me pego extasiada, de ver que tantos anos depois a vida me levou a ter um vinculo tão tênue com alguém. E ao mesmo tempo tão próximo. “Será que ela viu aquela última do Calvin de que eu tanto gostei?”. Idéia boba, que diferença faria afinal?
O mundo não se reduz mais a uma casca de noz. O mundo se reduz a uma rede social. Beira a tristeza. 15 anos depois e se nos encontrarmos eu poderei dizer “Puxa, que legal, então você também gosta de quadrinhos?”. Tantos anos depois, e essa agora é a única informação que de fato sei sobre o adulto que ela virou.
O mítico manual das mulheres
08 Mar 2012 Deixe um Comentário
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Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
“E quem entende as mulheres?”. Essa deve ser a questão do milênio. A reclamação padrão dos machos desconsolados. E dos consolados. E dos que não precisam de consolo.
Não acho que seja tão difícil, ao mesmo tempo que acho impossível responder. Comecemos pela impossibilidade. Falar de mulheres é generalista demais. Há as que buscam o amor em toda a esquina, e as que fogem dele como o diabo da cruz. Não há regra geral. Insisto em dizer que nem todas as mulheres querem casar com um homem, e grudar nele. Já te ocorreu que ela pode querer só sexo casual?
E nem todas as mulheres gostam do mesmo tipo de homem (felizmente!). Algumas preferem fofos, outras os cafajestes, e algumas sinceramente não preferem homem algum.
E aqui entram as possibilidades. Claro que você vai saber o que uma mulher quer, entre as tantas opções. Mas para isso você precisa ouvi-la e prestar atenção, que basicamente é a demanda geral feminina.
Acho peculiar como os homens reclamam que não entendem as mulheres depois que levaram um belíssimo deslocamento de apoio plantar na região nadegal (também conhecido como pé na bunda), mas não se lembram do dia em que ela falava o que queria porque estavam com o olho grudado na TV. “Uhum, sei amor” não é sinônimo de ouvir, e sem ouvir me responda, como se pode entender?
Atenção, carinho, dedicação e sexo bom, contudo, nunca mataram ninguém. É o mínimo que se pode oferecer. Já ouvi muitos amigos dizerem que “Fulana é louca”. Não que isso não aconteça às vezes, afinal algumas mulheres têm a capacidade de surpreender até a mim, que sou mulher. Mas no geral o problema são as demandas desencontradas. Homem-que-busca-relação-light-namora-mulher-que-quer-casar. Francamente, quais as chances?
O problema não é a falta de manual do sexo oposto. É a falta de cotonete nas orelhas, pra ajudar a ouvir. E realismo pra encarar que cada um esteja vivendo um momento diferente. Pois muitas vezes, como já dizia Caetano, “Onde queres família, sou maluco. E onde queres romântico, burguês”. E neste caso, nada salva, nem o amor.
